Somos revolucionárias por sermos mulheres viajantes?

Cada vez mais, o tema de mulheres viajantes tem ganhado espaço nas discussões. Muitas vezes, a abordagem do mesmo parte de uma ideia de inovação. Esta novidade seria o fato de que nós, mulheres dos séculos XX e XXI, somos empoderadas e viajamos só, entendemos nossas possibilidades. Porém, este discurso apresenta dois grandes problemas e é sobre eles que eu gostaria de conversar hoje. O primeiro é de que atualmente, é senso comum que mulheres viajam sozinhas e não sofrem assédio de conhecidos e desconhecidos por isto. O outro ponto é de que as mulheres começaram a fazer isto graças à terceira onda do feminismo, que vem se fortalecendo nos últimos anos.

Tendo em vista a ideia de que mulheres viajantes é algo aceito pela sociedade, é importante quebrar a noção de que este é um lugar comum e que nossa autonomia é aceita. Para problematizarmos isto, posso começar por um exemplo pessoal. É uma constante que pessoas próximas a mim, me indaguem se o meu casamento não é afetado pela minha autonomia, seja por eu viajar sem a companhia dele ou por simplesmente, fazer algo com as minhas amigas na cidade em que vivemos. Antes de casar, sofria o assédio através de outras abordagens. Me diziam, por exemplo, que eu não me casaria, não teria um relacionamento estável por prezar o meu espaço também. Por outro lado, saindo do campo pessoal, um exemplo marcante deste incômodo da sociedade para com as mulheres viajantes, foi a forma com a qual a mídia em geral, mainstream ou alternativa, tratou o assassinato das turistas argentinas no Equador. Um dos vários casos de feminicídio que vemos cotidianamente.

Agora, se continuarmos pensando que as mulheres atuais são inovadoras, acabamos por silenciar toda uma leva de ancestrais, abandonando-as ao ostracismo. Trabalhos como o da portuguesa Sónia Serrano e da brasileira Stella Franco nos trazem narrativas históricas importantes, a partir de documentos que nos contam a história de viajantes desde o século IV. Tais viagens muitas vezes feitas com o objetivo artístico, científico ou familiar. Muitas destas mulheres, viajando sem companhias masculinas. Imaginem o quão revolucionar e transgressor o foi.

Para discutirmos esses pontos de modo mais aprofundado, elaborei um curso a ser ministrado no Rio de Janeiro, o “Como viajar sozinha?“. Ele ocorrerá no dia 24 de junho, à tarde, no espaço criativo GWS.  Se quiser saber um pouco mais sobre o conteúdo programático, acompanhem por aqui.

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