Papo de bar: falando de (in)tolerância

Os últimos meses me fizeram repensar minha posição de indivíduo inserido em um mini contexto chamado minha comunidade. Estando solteira, tenho tido encontros com pessoas com potencial de parceria. Três dates me marcaram muito. Conto tudo.

Primeiro: o cara era da mesma empresa que eu. O fato de conhecermos a mesma realidade de trabalho já faz com que se fique mais aberto à experiência. Saímos para um barzinho na Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro. Conversa vai, conversa vem, tudo indo ok quando o assunto Eleições 2018 chega à mesa. Meu acompanhante da noite defendia o apocalipse, enquanto falava de ordem. Discordando de seu ponto de vista, tentei argumentar algumas vezes. Tentei desmembrar suas ideias mostrando as consequências da reprodução de discursos messiânicos. Não deu. Em determinado momento, o diálogo ficou impossível. Paguei minha parte da conta, dei tchau e saí do bar.

Segundo episódio. Estava saindo com esse carinha havia quase um mês. Já estava sendo apresentada aos amigos como “primeira dama”. Um dia, em virtude da visita de uma amiga de São Paulo, resolvemos ir a uma salsa. E como é comum nesses lugares, alguns homens me tiraram para dançar e eu, como ser respirante que sou, fui. Dancei, agradeci, voltei. Isso aconteceu algumas vezes até que, durante uma dança, meu boy me segurou pelo braço e me separou do meu parceiro de dança. Aos gritos de “ele está me desrespeitando ao dançar com você assim” e “eu vou quebrar a cara dele”, saiu de rompante e me deixou no local com minha amiga. Não falou mais comigo até a noite do dia seguinte. Através de um textão, terminou comigo porque “mulher minha não dança com outros caras” e “não me venha transformar isso em machismo quando, na verdade, é uma questão de respeito”. Tentei conversar sobre o ocorrido, coloquei-me disposta a trabalhar o que estava em questão, mas ele não quis e desapareceu da minha vida.

Terceiro evento. Conheci o carinha através de um aplicativo de pegação. Conforme as regras de comportamento dos usuários dessa linda ferramenta, conversamos, passamos às outras redes sociais, stalkeamos a vida do outro e marcamos de sair. O papo estava excelente, a cerveja estava gelada, não estava nem frio nem quente demais. Tudo conspirava para um final feliz até que… Sim, há um até que! Até que discordamos sobre a transposição do Rio São Francisco. Importante ressaltar que eu sou carioca, ele, pernambucano. Claramente vemos o assunto através de ângulos diferentes. Quando coloquei minha posição sobre a questão, posição oposta a dele, recebi imediatamente caras e bocas de reprovação. O corpo se fechou, as mãos, que antes tentavam me tocar, foram para dentro do bolso e o tom ficou agressivo. Admitindo que poderia não estar informada sobre a obra e suas consequências, coloquei-me aberta à discussão, provocando um debate. Não houve essa chance. Ele pagou a conta e simplesmente foi embora me deixando sozinha no bar.

Os três casos são pequenos exemplos do quão intolerantes estamos. Seja como sujeito seja como objeto do abandono, cada vez mais não dialogamos com o outro. O pensamento de “se não está de acordo com as minhas ideias, não me serve” é recorrente. Todavia, experiências como as que listei acima, trazem outros questionamentos: o outro, tendo contato com pontos de vista diferentes, não pode mudar de ideia? E mesmo ouvindo o outro lado, esse outro pode permanecer com seu pensamento original, não é? E permanecendo com suas ideias, só por discordar de mim, ele tem mesmo que ser defenestrado? Só existem dois lados: os que estão a favor e os que estão contra mim?

Quando crianças, nossos criadores nos apresentam um mundo dicotômico: o bem e o mal, o preto e o branco, o 8 ou o 80. Essa bipolarização é importante para o desenvolvimento da criança, para sua formação de caráter além de ser necessária dado o nível de complexidade, de abstração que um pequeno ser consegue apreender. Ao crescermos um pouco mais, vemos que entre dois polos, há uma infinidade de possibilidades. E, sendo assim, por que, na relação com o outro ainda insistimos no maniqueísmo?

O papo aqui é aberto. Podemos apelar para uma série de razões, podemos trazer até explicações religiosas para a conversa. A proposta nem é achar um motivo, uma razão, uma certeza. Se alguém tiver alguma explicação, sou toda ouvidos. Só estou trazendo ao pensamento nossas próprias atitudes. Quando eu abandonei o bar no primeiro episódio, eu me achei no direito do não diálogo e ainda mandei um “não sou obrigada”. Ok. Não sou mesmo. Mas quando a situação se inverteu, quando eu fui deixada, bateu aquela interrogação: “Assim? Sem conversa? É isso mesmo?” Porque acredito que, de alguma forma, teria ganhado algo naquela troca. Minimamente falando, entenderia melhor a cabeça do outro que lá estava.

Sinceramente não acredito que estamos melhorando a sociedade ao não conversar. Como boa geminiana que sou, penso que o exercício do diálogo ainda é um dos melhores meios de se aprender, de evoluir. É claro que não é tão simples assim, por isso mesmo é um exercício, é labuta. Acho válido tentar, colocar em prática nos pequenos momentos do dia-a-dia, seja na ida à padaria, seja em um encontro ou no bar com conhecidos.

Mas e você? O que você acha? Vamos conversar?

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