Lobo em Pele de Cordeiro: como é fácil nos envolvermos com caras abusivos

Saí com um carinha aí. O primeiro encontro foi sensacional. A gente se entendeu desde o primeiro olhar. Em dois segundos na presença do outro já estávamos completamente à vontade. Os corpos se colocavam, por puro instinto, por puro “tinha que ser mesmo”, alinhados, em posição complementar. Quando nos beijamos, foi encaixe puro. Língua no lugar certo, abertura e viradas no momento exato, gosto delicioso, tudo fluiu. Perfeitamente.

Nosso segundo encontro foi na casa dele. Fiquei super nervosa, dei telefone, endereço, perfil do Instagram e do Facebook para amigos para o acaso de dar tudo errado e eu precisar de ajuda”. Sabe como é, né? Mulher tem que se cercar. Eu não conhecia o cara. Tinha saído com ele uma vez só. Sei lá se ele não era um psicopata. É melhor se prevenir. Ok. Fui para lá. E, de novo, foi tudo perfeito. Super carinhoso, humilde, não foi me enfiando no quarto ou contra a parede para me comer. Abrimos um vinho, sentamos no sofá da sala, me mostrou a casa, passamos um bom tempo vendo fotos de família (eca! detesto! Acho chaaaato mas faz parte do mise em scène), falamos de filmes, trocamos uns beijos, conversamos mais… E só depois de um bom tempo, fomos para o quarto. E como não poderia ser diferente, o sexo foi maravilhoso. Transamos das 23h às 4h da madrugada. Foi incrível. Encaixe, pele, pegada, gozo. Tudo perfeito. Do jeito que todas queremos, com olhos nos olhos, com tesão. Amanheci na casa dele, acordou comigo às 6h da manhã, se ofereceu para fazer café, recusei. “Quem é que toma café da manhã às 6h da manhã?!” Se levantou comigo e me levou até a esquina para eu pegar meu táxi. Morri. Que homem! Achei que tivesse achado finalmente o cara que pudesse ser meu parceiro, que pudesse dividir um pouco essa vida louca que eu tenho.

A terceira vez que ficamos, essa fica para a história. Era um sábado, eu estava em casa quando recebi uma mensagem dele pelo celular me chamando para sair. “Quero te ver. Onde você está? Vamos nos encontrar?” Deviam ser umas 18h… Conversa vai, conversa vem, combinamos de nos ver em uma boite no centro do Rio muito boa, mas muito cara. Na verdade, o lugar é conhecido por receber muito gringo. Tem um samba de qualidade, mas carioca que é carioca só vai lá quando quer interagir internacionalmente. Achei estranho o convite que veio acompanhado de “eu vou. Já decidi, mas queria que te ver também.” Ok. Não é um lugar que eu iria, mas eu queria ver o cara. Tomei meu banho, me arrumei, botei aquele vestido sexy. Quando cheguei, encontrei-o trêbado, isso mesmo: trêbado, não bêbado. Ele já estava enrolando a língua, tropeçando. Minhas amigas me disseram que aquele era o momento que eu deveria ter ido embora. Não fui. Pensando em tuuuudo que tínhamos passado, achei que podia esperar a bebida baixar um pouco. A ilusão era a de que ele voltaria a ser aquele cara que conhecera poucos dias antes. Mas não. A bebida não baixou e a situação só piorou. Para resumir meu calvário, ele se tornou cada vez mais agressivo. Seus beijos eram violentos. Ele puxava meu cabelo na frente de todos de forma que me machucava, apertava a minha bunda com grande desrespeito, pegava meu braço machucando. E eu ali. Eu fiquei ao lado dele. Ao longo da noite, fez alguns escândalos falando que eu estava dando mole para outros caras. Virava as costas para mim na pista de dança fazendo-me sentir um nada. Me humilhava se recusando de forma bem agressiva e expansiva a dançar comigo no meio de todos. E eu lá. Ao lado dele. No meio da boite. Minhas amigas falaram que eu não deveria ter suportado aquilo tudo, que eu deveria ter ido embora. Mas eu fiquei. E eu fiquei com medo. Imaginei estratégias para não ir embora sozinha com ele. Pensei em pedir ajuda aos seguranças, mas não conseguia me mexer. Fiquei até às 4 da manhã e saímos de lá juntos.

Andando em direção ao táxi, uma chapinha de garrafa entrou na minha sandália, o que me fez parar e sacudir o meu pé para que ela saísse. Nesse momento, ele começou a gritar falando que eu estava dando mole para os caras que estavam na rua perto de mim. Foi quando parei, olhei fundo no olho dele e falei: “já deu. Eu vou para minha casa.” Entrei no primeiro táxi que vi e fui embora.

O dia seguinte foi um dia em que ruminei tudo o que acontecera. Tim-tim por tim-tim, repassei cena por cena, diálogo por diálogo, agressão por agressão. Levei um dia todo, inteiro mesmo, para entender a agressão que havia sofrido. Cheguei a pensar que tudo era apenas culpa da bebida, que ele era um cara bom e que a gente poderia dar certo, sim, independente daquele episódio. Até que me toquei: não. Não tem como dar certo. Não. O cara é abusivo. O cara é violento. Isso é ele. Não é a bebida. E mesmo que haja o elemento da bebida, quer dizer que ele nunca mais vai beber? Que esse foi um evento isolado. Não.

Entendi depois que tinha sido muito positivo para mim não ter ido embora. Se eu tivesse ido, eu teria saído com ele outras vezes. E talvez eu não tivesse saído ilesa.

Escrevi, então, um textão para ele falando de tudo, do que ele havia feito, de como havia me sentido e falando, inclusive, para que ele conversasse sobre isso com amigos e que entrasse em terapia. Resolvi riscar de vez aquela pessoa do meu convívio. Racionalmente. Emocionalmente, eu estava bem arrasada. E olha que eu não amava o cara. Eu só tinha tido duas experiências muito boas com ele. Era tesão que eu tinha, mais nada. Mas eu estava arrasada.

Uma semana depois acordo com um textão dele. Pedia desculpas, falava que aquele não era seu verdadeiro eu, que a educação havia tido não permitia esse tipo de comportamento. Pedia uma segunda chance para provar que ele não era aquele monstro. Falava que tinha gostado muito de mim e que sabia que a gente podia construir algo muito maior juntos.

Óbvio que pirei. Óbvio que fraquejei. Óbvio que pensei que ele poderia estar certo, que todos merecem mesmo uma segunda chance. E que ele poderia mostrar não ser um agressor. Até que a ficha caiu: NÃO. Ele era o monstro. Ele é agressor. Ele é abusivo. Ele é violento. E eu estava caindo no conto clássico do cara que mete a porrada na mulher, pede desculpas, a mulher cai e ele volta a espancá-la. Eu me dei conta que, aceitando suas desculpas, eu estava me colocando na fila para entrar para as estatísticas. E é por isso que estou contando isso aqui. Essa experiência é minha. Sei que há tantas parecidas e piores por aí. Sei que há mulheres que não conseguem se desvencilhar, que não conseguem se livrar, que ainda acreditam nas desculpas pedidas. Falo a partir da minha visão, mas falo de coração: amem-se primeiro. Queiram o seu bem primeiro. Conversem com suas amigas, com aqueles que te amam de verdade. Assusta o quão fácil é entrar em uma situação dessas. Mesmo a gente debatendo, falando, conversando, colocando a pauta em dia, o risco ainda é atroz. Não carreguem isso só para vocês. As consequências podem ser desastrosas. Não se permitam ser tratadas com menos amor que do que merecem. A gente sofre uma lavagem cerebral cruel, a gente tem nossa autoestima dilacerada,  mas vamos juntas. Juntas somos mais fortes.

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